Marketers: já não somos quem queríamos ter sido

Sdiana1abemos que com o aparecimento das redes sociais, a nossa rotina se alterou todos os dias, até ao dia de hoje. O que antes era uma comunicação in-realtime, in-loco, in-face-to-face, hoje em dia a comunicação, para além de ser quase sempre in-social-media, é, impreterivelmente, constante, não pára, não desliga.

Para responder à expectante demanda de actualização de conteúdos, os pedidos de criação chegam-nos a todas as horas e minutos, quase sempre com a típica urgência fantasmagórica e deixa-nos de braços abertos para um caos que pensamos compreender. Juntando a tudo isto, existe ainda a constante sede de lermos todas as informações que nos inundam os emails, as contas, os telemóveis… não existe uma alimentação saudável de toda a informação que absorvemos.

Este facto real e actual dos nossos dias não tem problema nenhum, a não ser o de existir, efectivamente. Assumindo uma posição de cada vez mais destaque, aquilo que para a maioria dos socialholics começou como uma função no local de trabalho ou uma distracção social, rapidamente se estendeu à nossa vida pessoal e não conseguimos largar os telemóveis, as redes sociais, não desligamos nem por um segundo da vida i-real que criamos. E deixamos de viver a vida real que sonhamos, o momento tranquilo em que desligamos as máquinas e a criatividade ganha espaço na mente.

Sentimos que este excesso de informação nos invade os espaços que estavam vazios e mesmo os que não estavam vazios, retirando-lhes as coisas que tinham lá antes e que, depois de saírem, já não nos lembramos quais eram. Mas eram importantes. Ainda pior do que demasiada informação, é que existe uma infoxicação enormíssima de conteúdos inúteis e desinteressantes que criamos todos os dias, que lemos, que nos atiram para os olhos lerem, com cores que chamam, com apetites que nos abrem. Com todas as facilidades que existem de fazermos um login onde quer que vamos, transformamo-nos em pessoas logadas e não em serem humanos ligados: estamos constantemente de i-móvel na mão. Nunca nos esquecemos dele: aliás, até fazemos coisas só a pensar nele: no i-móvel. Isto faz-me lembrar uma conversa que tive há pouco tempo com um amigo, sobre a evolução dos concertos de Verão, hoje em dia chamados de “festivais de verão”.

Falávamos como eram bons os tempos em que ir a um concerto significava ir ver apenas uma banda de música (uma boa banda de música) e, na sua maioria, era num descampado cheio de pó. Mas, hoje em dia, nesses tais festivais de verão só lhes falta ter uma loja da Zara com campanhas no Instagram, para tudo se tornar mais global, mais in, mais giro, mais cool. Já são poucos os que olham para os concertos musicais sem verem “um espectacular show de social media”. Mas de quem é a culpa de todo este exagero, afinal? Era tão bom quando tudo era tão simples.

As prioridades que escolhemos são as culpadas. Temos as prioridades trocadas. Já não vamos a um concerto para ouvir música boa: vamos para tirar #selfies. Para mostrar que estivemos lá também, porque toda a gente ia estar e postar no FacebookE depois do concerto já não ficamos sentados no chão a conversar, beber cerveja e fumar dois cigarros às escondidas, entre risos divertidos e cheios de vontade. Vamos comer ao novo-gourmet-mais-in-da-cidade com a carta de vinhos em ipad à qual tiramos uma foto para a estrangeirada do Twitter ver que até somos umas pessoas avançadas em tecnologia, e depois enfiamo-nos num café da baixa com a música mais alta do que aquilo que estava no concerto e berramos para pedir o gin, e berramos com os amigos para conversar e vemos alguém que até gostávamos de conhecer e trocar dois dedos de conversa mas não vamos lá conversar porque senão tinhamos que berrar também e isso era falta de educação na primeira conversa, é a mesma coisa que escrever em MAIÚSCULAS.

E bebemos um litro de gin com muito gelo porque esta salada de fruta está na moda, ficamos com as mãos tão frias deste copo que só nos apetece guardar as mãos nos bolsos, mas não podemos porque todos estão a dançar e a sorrir e nós só queremos estar quietos e ouvir a música que está boa, mas se fizermos isso parecemos uns falhados chateados com a vida.

Então, ao amanhecer vamos para casa, pagamos 10€ de parque que mais valia ter ido jantar a casa, a conduzir, cheios de medo da operação stop, chegamos a casa estonteados e zonzos porque nunca mais volto a sair à noite com esta gente. No dia seguinte, já de tarde, acordamos, vemos as fotos no Facebook, o concerto foi altamente, temos que repetir!! A maluca do grupo instagrama as fotos do gin a dançar em cima do balcão, e não me lembro como fiz aquilo mas foi altamente, temos que repetir!!!

No fundo, escolhemos ser quem não somos, porque quem somos é uma seca para a sociedade que se alimenta das redes sociais. Porque eu só quero estar e ser como sou, mas a moda é sair e conviver como eles são, extremizar no extremo máximo e rasgar os lábios a berrar e depois, claro, colocar no Facebook. E são estas as nossas prioridades. Escolhemos ser como não somos, só porque todos também o são. Mas que sociedade é esta em que cada indivíduo está online durante todo o dia e toda a noite, mas nunca realmente fica online consigo mesmo? O que se passa com as pessoas que não desligam o telefone? Se estar online é importante porque a empresa necessita ou porque me apetece, estar offline é obrigatório para o ser pessoal e equilibrado que somos. Quando olho os meus filhos daqui de cima e eles ali em baixo daqui a uns anos, questiono-me que sociedade é esta que está a nascer: os meus filhos vão crescer com chip incorporado a cada acção que fazem.

Li algures na semana passada que as mães que acabaram de dar à luz olham menos 70% para o rosto do seu bebé porque estão a conversar online com as amigas. Mais uma vez sublinho, estar online ou ter presença nas redes sociais não tem nenhum problema nem apresenta vergonha para ninguém, mas temos que dar espaço para a realidade que somos, para os amigos, para os jantares ou simplesmente para… não fazer nada de especial. Para um marketer, estar online é muitas vezes um vício. Preocupa-me a evolução social deste fenómeno, se cada um de nós não meditar um pouco sobre este assunto. A produtividade individual de cada um coloca-se em risco quando deixamos de parte a nossa realidade para apenas nos alimentarmos de um canal virtual: 24h sem i-bateria nem sabe o bem que lhe fazia.

Autora: Diana Teixeira de Carvalho / Digital Marketer

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