Nothing But Flowers

Years ago
I was an angry young man
I’d pretend
That I was a billboard
Standing tall
By the side of the road
I fell in love
With a beautiful highway
This used to be real estate
Now it’s only fields and trees
Where, where is the town
Now, it’s nothing but flowers
The highways and cars
Were sacrificed for agriculture
I thought that we’d start over
But I guess I was wrong

Vi há pouco tempo o primeiro episódio de “A Minha Vida Dava Um Anúncio” de Gonçalo Morais Leitão. Passa na SIC Radical para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade.
Eu gosto do Gonçalo, e trabalhei com o Gonçalo na Cupido. Aprendi muito e guardo as melhores saudades do tempo que ali passei e dos amigos que fiz.
Mas existe um sentimento perverso que sinto ao ver o programa. Durante dias não conseguia perceber exactamente o que era.

Afinal de contas que aversão inexplicável era esta que senti perante um conteúdo que não mais era que o acompanhar de um dia na vida de alguém que admiro, que respeito e que reconheço talento? Irritação normal do portuguesismo que me atinge perante o sucesso dos outros? A distinção de carreira que eleva o desvio que tomei para “o cliente”? Começo já eu a sofrer das cataratas que me toldam a visão perante o outro lado da barricada que agora ocupo?

Foi durante a 397ª audição de “(Nothing But) Flowers” dos meus Talking Heads, que a coisa se deu. A luz…

Para mim “(Nothing But) Flowers” é o mais perfeito dos sarcasmos. Uma música que tresanda ao que os Vampire Weekend gostavam de fazer e que num tom festivo a sul do hemisfério, fala (canta) das coisas que “já não estão lá”. De como na desilusão do falhanço da humanidade perante a Natureza nos notamos num ambiente confuso e alienígena e mais natural. Onde os símbolos mais básicos do consumismo são substituídos, lá está, por flores.
Agora… agora vejo as flores.

O mundo da publicidade, dos anúncios, sempre me seduziu. Sempre exerceu em mim uma força que limava as pontas da bússola da vida que vamos escolhendo. Sim, com reconhecidos e conhecidos desvios de percurso (um dia prometo tocar nesse assunto com a clareza e tempo que merece) sempre me aproximei da ideia de criar soluções criativas para responder a desafios dos “clientes”.

Foi com o Edson Athayde e o seu tio Olavo que descobri, na televisão, que existiam pessoas detrás daqueles minutos mágicos que vendiam chocolates com carros e explosões. Foi com um programa de televisão que vangloriava a criatividade detrás dos anúncios que descobri que esse caminho, essa escolha de vida, era possível.
Foi depois com as inúmeras interpretações hollywoodescas do estereótipo do “criativo” que a coisa começou a tomar forma; disforme; obviamente.
Seduzido pelas amplas imagens de open-offices onde “gentes” com óculos de massa atiravam bolas de ténis à parede enquanto discutiam ideias com os pés em cima da mesa segurando canecas de café com lettering forte eram sustento para massa cinzenta. A iluminação era obviamente parca e contrastava com o brilho que emanava dos storyboards aleatoriamente espalhados nas paredes. Este era, claramente, o emprego mais fixe de todos os tempos.

Anos voltam e vi as flores.

Este não vai ser mais um texto de como agências, clientes, produtores e fornecedores tiram partido de um mercado que claramente abusou do excesso de oferta em talento e disponibilidade de recursos durante anos. A mais que usada imagem da matilha de cães que corre para o osso já sofre de cliché. Não sofre de inexactidão.

Mas quero falar do osso … e de como o continuamos a pintar e usar truques e tiques de iluminação para parecer que tem mais carne … que tem mais por onde roer e que vale a pena trincar.
Quero que nos perguntemos: se ao mostrar o dia-a-dia de Directores Criativos que têm tempo para tudo e uma vida de alguma forma invejável e inacessível à maior parte, se não estaremos a contribuir para pôr carne no osso que não temos para servir?

Houvesse um programa na televisão sobre a criatividade em Portugal e seria sobre os estágios intermináveis sem remuneração. Das noitadas sem horas extraordinárias, porque o dobro de nada, nada será. De como em tempos uma conhecida agência no mercado se atreveu a fazer um leilão invertido para escolher o próximo activo (quem oferecesse a menor proposta de remuneração ficaria com o cargo). De como podes ver todos os teus contemporâneos que escolheram outros caminhos, estando sempre com um olhar incrédulo para a ti quando lhes falas de como passa o teu dia. De como nunca vais conseguir explicar exactamente o que fazes aos teus pais.

Reconheço a importância dos capitães, mas acho que ainda não falámos dos soldados… e das flores.





Autor:
Francisco Morgado Véstia
Digital Manager, L’Oréal Paris

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