LOOK OUTSIDE: “Em Luanda com o coração em Portugal”

Hoje apresentamos uma nova colaboração no projecto LOOK OUTSIDE. Emanuel Lopes Costa é  Director Comercial da MS Projects & Solutions e responsável pelas Vendas directas. Filho de pais Goeses, nasceu na África do Sul e foi criado em Setúbal. Está a viver em Luanda desde 2013, longe da filha de 6 anos e da família. Apaixonado pelo mar e por tudo o que tenha uma relação com ele, fora do horário de trabalho, é totalmente dependente do excelente grupo de amigos que tem. Vai partilhar connosco a sua experiência diária em Luanda.

Quero convidar-vos para pEmanuel-Lopes-Costaassar 3 dias comigo no último fim-de-semana em Luanda, antes de um período de férias em Portugal. Vamos partilhar o meu dia-a-dia e pretendo que seja uma visão descomplexada e despretensiosa, para que cada um retire as suas conclusões sobre o que é viver em Luanda.

Sexta – Feira

07:00 – Levantar a esta hora é um privilégio que poucos têm, no meu caso é consequência do facto de viver a 20 passos do escritório da empresa.

Vamos então verificar se temos água, não vá o abastecimento ter sido cortado e por um cúmulo de azar, o tanque ter ficado também sem esse líquido precioso. Estamos com sorte, dá para desfazer a barba com a lâmina de 15 utilizações, consequência do preço proibitivo deste material e da falta de tempo para ir ao supermercado.

Duche terminado, mas já estamos a suar como se não houvesse toalha, porque nos esquecemos de ligar o Ar Concionado do quarto. Camisa e calça passada, porque a Marlene é a Mãe e Amiga que todos queremos ter em Luanda. Assume o papel na sua perfeição, pelo menos reclama como tal.

08:00 – Escritório.Nada como um café daqueles de intensidade 10 ou 12, para nos colocar em modo operativo.

Chega a rapaziada, um momento único, todos se cumprimentam como se de um ritual religioso se tratasse. Socialmente, ou mesmo profissionalmente, não é de bom-tom ir directo aos assuntos, há preliminares que devem de ser cumpridos. A família é uma instituição basilar na vida das pessoas, e temos de inquirir por toda ela antes de iniciar qualquer processo de conversa ou negociação.

10:00 – Distraídos, como é normal, entramos no Banco a falar ao Telemóvel. Vem imediatamente um “operativo” munido da sua AK 47 e da autoridade que uma farda lhe dá, mesmo que seja de uma empresa de segurança particular; “Senhor- desligue o celular, imediatamente!”

Cumprimos, e vamos ao balcão falar com o funcionário. Temos de tratar de uma transferência para Portugal. Depois de verificada toda uma infinidade de papéis necessários, encontramos a seguinte resposta “ Senhor, não podemos agilizar porque há problema de sistema”. Trata-se de uma justificação tipo, one size fits all. Voltamos para casa e tentamos mais tarde, ou noutro dia em que haja “sistema”.

12:30 – Hora de almoço. Como estamos no Kinaxixi (centro de Luanda), temos algumas possibilidades para escolher, desde o Nandinhos ao Oon.Da, começando nos 30 USD até 200 USD por pessoa. Nesta altura percebemos por que razão esta cidade está sempre no top 3 das mais caras do mundo.

Hoje vamos almoçar com o Bruno e com a Teresa, quero falar com eles sobre a FILDA (Feira Internacional de Luanda), porque quero saber datas e pedir convites. Não podemos perder este evento, é o maior acontecimento empresarial em Angola, e em alguns casos alimenta de contactos e trabalho todo o resto do ano.

14:00 – De caminho para Talatona, escolhemos a Avenida Samba, trânsito é uma certeza, por isso mais vale termos uma vista para a Baia e a Ilha do Mússulo. Nesta nova cidade, temos um vislumbre da Europa com os seus condomínios, ruas sem buracos, estacionamento e prédios com elevador, priceless. Grande parte das empresas começa a transferir as suas sedes para esta zona, embora o processo seja lento, porque grande parte dos serviços Governamentais estão no Centro da cidade e não podemos fugir deles.

Angola, e mais especificamente Luanda, é um mercado deveras interessante. Há uma apetência natural para o consumo. Existe uma classe média a nascer, com um grande poder de compra. São funcionários públicos e de empresas públicas, empregados bancários e pequenos comerciantes e empresários. Esta nova classe está informada e sabe o que quer e porquê. Estudou fora e compra na Avenida da Liberdade. Se lá tivesse uma loja a minha publicidade estaria em grande parte direccionada para as revistas angolanas. Não temos de criar necessidades porque são patentes, basta direccionar as preferências.

17:30 - Reunimos com quem temos de reunir e voltamos a “descair” para a cidade. Estrategicamente, estamos com grande foco nas empresas de Construção e com claras oportunidades na Hotelaria. De volta à Samba encontramos um cenário inigualável; o pôr-do- sol em Luanda, as cores são fantásticas e só é pena que acabe em 5 minutos, um fenómeno que não sei explicar.

19:30 – De volta ao escritório. Reparem na hora. O trânsito em Luanda é uma coisa inexplicável, onde deviam estar duas faixas estão quatro, e ainda passa o candongueiro (os táxis do povo) na sua Hiace a buzinar e a reclamar porque a estrada é dele. Civismo é sinónimo de burrice e há duas leis; quem é mais rápido e/ou maior. De resto, as motos podem circular em todos os sentidos, para elas os semáforos são apenas decoração luminosa.

21:00 – Hoje vamos jantar a casa do Diogo. Vem a Paty e a sua Bimby, trazida como bagagem de mão na sua chegada a Luanda. Tem sido um sucesso. Faz granizados, sopas, leite-creme e as nossas delícias. No essencial, juntamente com a disponibilidade da sua dona, tem sido o catalisador para juntar os amigos. Um Gin Tónico, com o seu efeito profiláctico contra o Paludismo, e uma Cucas servem de mote para um medley de cantoria, onde o nosso Francisco é claramente o farol a seguir.

00:00 – De volta a casa. Temos de abastecer o carro com gasolina, o preço é uma afronta para qualquer europeu, 40 Kuanzas ou seja aproximadamente 28 cêntimos de Euro. Juntamente com o tabaco e Cerveja são as coisas mais acessíveis em Angola e por isso digo que, por aqui tudo o que faz menos bem é relativamente barato. Amanhã é Sábado e só temos de chegar às 9 horas ao escritório e meio dia de trabalho. O fim-de-semana está à porta.

Sábado

14:00 – Churrasco na casa da Paty. O Amaral vai voltar por tempo indeterminado para Portugal, e esta é a razão que obriga a novo ajuntamento. Embora já estejamos no Cacimbo (estação fria), hoje é dia de piscina e alguns exageros. Estamos de fim-de-semana e só isso é motivo de celebração. Falamos da minha filha Lara, das filhas da Paty, dos filhotes do Amaral, do maninho da Teresa. A saudade e o saudosismo são denominador comum neste grupo. Como se diz por cá, estamos juntos! Ainda temos de passar na casa do Rui , para um abraço e um pouco de conversa. Este é conterrâneo e amigo de outras paragens. Merece o desvio, até porque em Talatona a coisa é mais fácil de gerir.

23:00 – Vamos ao Twenty ? Esta já é uma expressão comum para todos. Vamos ter com o Augusto e com o Serginho. Esta casa, que é em parte destes senhores, será um dia reconhecida pelos GIN LOVERS. Encontramos grande parte da comunidade portuguesa, esteja ela em Luanda, Talatona ou em Viana. É dia de “falar à toa”, conversa-se de trabalho (aqui o networking é importantíssimo), de lazer das histórias caricatas da semana.

Tanto ouves o Happy do Pharrell Williams, como de seguida vem o Ficar Fininho do Eddy Tussa, um verdadeiro ex libris do eclectismo musical. O Diogo um dia destes vai lá girar uns discos, mas ainda não foi desta. Combinámos com o Nuno, o mais experiente em Luanda, tem mais de 10 anos de Angola. Foi uma das pessoas que fez a minha integração, sem ele, ou alguém como ele, podemos demorar uma vida a tentar perceber esta terra, e na maioria dos casos sem sucesso.

Domingo

11:00 – Dia de Praia – Vamos à Ilha de Luanda apanhar um sol e repor as energias para a próxima semana. É o único dia de descanso total, tem de ser aproveitado ao limite. Ontem a noite foi longa, ainda fomos dar um pezinho de dança e salva-se o facto de hoje podermos dormir até tarde. Uns sumos naturais, uma refeição ligeira a fazer lembrar a Praia da Morena e o Borda D ́Agua. Falta cá a minha Lara! Este sentimento persegue quem está distante da família, é uma angústia tremenda, são períodos de 3 ou mais meses sem ver aqueles de quem gostamos e nestes dias são essas pessoas que nos fazem falta e de quem nos lembramos recorrentemente. 

18:00 – Em casa. Preparar relatórios, efectuar um apanhado dos projectos em curso. Responder aos últimos emails, nomeadamente aqueles que vêm de Israel onde hoje é um dia normal de trabalho. Configuramos o auto reply do Outlook e telefonamos a alguns clientes dando conhecimento da ausência.

No mercado Angolano a venda é feita com base na confiança, no produto, na empresa, mas essencialmente na pessoa com quem lidamos. É essa cara que queremos ver quando há constrangimentos, porque é ela que encontra as soluções.

20:00 – Hora de preparar as malas. Vão quase vazias porque na volta há sempre muita coisa para trazer, desde café, passando pela roupa até aos enchidos em muitos casos. Deixamos as últimas indicações aos colegas, procura-se sempre fazer o impossível que é deixar todos os assuntos arrumados.

Hora de dormir e é clássico que a noite será mal dormida, a ansiedade assim o dita. Só há duas certezas para um português em Angola, dias de trabalho com 10 horas ou mais e a de que um dia voltaremos para Portugal, e tudo isto valeu a pena.

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